Bonita de rosto? A mulher gorda e a maquiagem

Por Andressa Carrascoza

“Você é tão bonita de rosto” é o que muitas mulheres gordas ouvem durante a vida, como uma espécie de validação do seu valor ao mesmo tempo em que reforça o inevitável: falta só ser magra.

E o que elas fazem com essa frase repetida tantas e tantas vezes ao longo da vida? 1) Lutam para também serem “bonitas de corpo”; 2) Se apoiam em algo que torna o rosto uma verdadeira tela em branco pra se expressar: a maquiagem.

Crescer gorda é algo que te coloca fora de qualquer parâmetro. Em um momento como a adolescência, em que as meninas constróem seus gostos, grupos e suas identidades, a roupa é um veículo fundamental para essa descoberta. Mas, enquanto meninas magras podiam explorar as possibilidades em lojas de fast fashion, para as gordas, o processo não era tão simples. No caso de Juliana, criadora de conteúdo digital sobre moda, beleza e comportamento, as roupas sempre foram feitas sob medida por uma costureira. Enquanto suas colegas podiam comprar no shopping, ela ia em feiras de tecido buscar matéria-prima para fazer as peças dela do zero.

Foto: @juliipreta

Já a vivência de Angélica Silva, maquiadora e criadora de conteúdo, ressoa em muitas meninas e mulheres que passaram por dietas restritivas para tentar chegar a um corpo, muitas vezes, inalcançável: “Nós sempre esperamos ser magras para conseguir realizar qualquer coisa — comprar aquela calça jeans, mudar o cabelo. Parece que a vida só vai começar quando você for magra”.

Quando adolescente, você era emo, patricinha ou skatista? Muitas meninas eram apenas gordas, não por falta de estilo, mas pela falta de recursos na moda para que elas pudessem criar um visual para além da camiseta larga e da calça legging que servisse. É aí que entra a maquiagem: um universo em que essas mulheres, enfim, têm a possibilidade de se expressar sem limitações.

Bom, mas será que ser gorda já não chama a atenção o suficiente? Junto com a vontade de poder se expressar, existe um esforço — muitas vezes pautado por padrões e preconceitos externos — por parte de mulheres gordas para que passem despercebidas, que sejam o mais “normal” possível. Para Lorena, estudante de 24 anos, a maquiagem funcionou como uma ferramenta de compensação para lidar com seu aumento de peso durante a pandemia. “Eu usava a maquiagem como um jeito de compensar o fato de me achar feia de corpo. Assim como eu usava meu cabelo muito comprido, mesmo não sendo confortável, em uma tentativa de me sentir mais feminina e bonita”, conta. Na tentativa de se encaixarem em outras métricas, essas mulheres acabam absorvendo características consideradas ultrafemininas.

As técnicas de contorno facial, por exemplo, eram rotina na vida de Lorena para tentar mascarar o que considerava imperfeições. “No início, eu usava a maquiagem pra disfarçar meu peso, um contorno super pesado no rosto inteiro. Eu brincava que eu era catfish [termo usado para se referir a pessoas que criam perfis falsos na Internet para enganar outros usuários], pois só me achava bonita por foto e maquiada.”

Foto: @glamzilla

Mas como é se redescobrir uma mulher gorda depois de uma vida inteira de magreza? Problemas com anticoncepcional e crises de ansiedade podem mudar a relação com o corpo. Foi o que aconteceu com Paula, maquiadora de 29 anos que viu seu peso dobrar em um período de 8 meses, tendo que lidar com um novo corpo e uma nova forma de se expressar e de se movimentar por meio dele — tudo isso enquanto enfrentava uma forte pressão estética para voltar a ser magra.

Paula sempre gostou de se maquiar, mas assim que engordou, começou a usar a maquiagem como uma forma de “distração” em relação a seu corpo. “A maquiagem se transformou em uma fuga para mim. Ouvi tanto aquele comentário ‘nossa, mas você tem o rosto tão bonito’ que pensei: ‘vou me maquiar pra ficar ‘mais bonita’ e ninguém perceber que eu sou gorda’”, relembra ela.

O que todas essas mulheres têm em comum? Muito mais do que números na balança, elas carregam experiências com a maquiagem que andam junto à relação que criaram com o próprio corpo. Às vezes opressiva, às vezes libertadora.

O poder da maquiagem é uma via de mão dupla: ela pode esconder o que você não quer ver e pode amplificar o que você sente — tudo depende da intenção por trás de cada aplicação.

Foto: @angelic4silva

Com o tempo, algumas delas conseguiram transformar sua relação com as cores, texturas e pincéis e usar a maquiagem como uma peça fundamental para a formação de seu próprio estilo. “Eu gosto da modificação, de encontrar outras versões de mim, sair de batom azul, verde ou preto. Quero descobrir o que eu posso ser e como posso impactar outras pessoas”, define a maquiadora e criadora de conteúdo Angélica Silva.

Mas será que esse lugar de abrigo para as mulheres gordas as reconhece de volta? Conversando com essas mulheres, todas disseram não se sentir representadas ou vistas em peças publicitárias, campanhas ou pautas, por exemplo. Por mais que a evolução exista, ela parece lenta quando falamos de rostos gordos em marcas acessíveis disponíveis no Brasil. “A indústria da moda e da beleza ainda olha para mulheres brancas e magras que têm a possibilidade de se transformar constantemente em prol da tendência do momento”, diz Angélica Silva.

Angélica conta que se sente responsável por trazer para si e mostrar em si mesma tendências muito disseminadas em rostos brancos e magros, rompendo o estigma de que algo só pode funcionar em um determinado padrão de beleza e espalhando a mensagem de que o intuito não precisa ser criar um novo rosto, mas se divertir com o que você já tem.

No fim, todo rosto, todo mesmo, é digno de ser maquiado e provocar a sensação única de se olhar no espelho e, enfim, se enxergar.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.