O batom vermelho como uma poderosa ferramenta política

Na Roma Antiga, o batom vermelho funcionava como um marcador de classe e status social — e era usado tanto por homens quanto por mulheres. Já na Idade Média, a boca avermelhada não foi poupada das severas regras morais impostas pela Igreja, e passou a ser considerada uma heresia, um insulto a Deus e sua obra. Mesmo assim, os lábios coloridos continuavam atuando como um distintivo social. Em 1200, a alta sociedade italiana usava uma cor vibrante, mais puxada pro pink, enquanto as classes baixas usam tons terrosos.

Depois, no século 16, o que já era ruim ficou pior: as mulheres que usassem batom vermelho podiam sofrer perseguição e ser julgadas como bruxas. Até que em 1770, o governo britânico tornou tudo oficial, aprovando uma lei que condenava as mulheres que pintassem os lábios com a justificativa de que “seduzir os homens ao matrimônio por meios cosméticos” era uma forma de bruxaria. Sério. Presa pelo crime de ser gata demais.

Anos mais tarde, no começo do século 20, o batom vermelho se transformaria em um símbolo importante do movimento sufragista, que lutava pela participação das mulheres na política — especialmente pelo direito ao voto. Em 1912, durante uma marcha das sufragistas nos EUA, a cosmetóloga e empresária canadense Elizabeth Arden distribuiu 15 mil unidades do produto pras mulheres que passavam em frente ao seu salão. Ali, depois de anos de restrições masculinas sobre o corpo feminino, a boca vermelha ganhou um significado de resistência e união feminina.

É importante lembrar, contudo, que as manifestações sufragistas eram essencialmente brancas e de classe alta. Em seu livro “Mulheres, Raça e Classe”, a filósofa estadunidense Angela Davis mostra como as demandas das mulheres negras foram apagadas pelo movimento sob um argumento de conveniência — como se o voto das mulheres negras pudesse dificultar a conquista do voto feminino — e até de supremacia racial.

Sobre a relação das mulheres negras com o batom vermelho, a historiadora da moda Shelby Ivey Christie deu um depoimento bem interessante à Teen Vogue: “Usar batom vermelho tem a ver com uma mudança de narrativa sobre o que ele tradicionalmente significa pras mulheres negras. Existe um longo histórico de hiperssexualização, potencializado pelas caricaturas das mulheres negras com os lábios vermelhos bem exagerados. Pras mulheres brancas, o batom vermelho é algo ousado, visto como uma ferramenta de poder. Pras mulheres negras, esse visual não é encarado da mesma forma, até porque nossa pele tem melanina [e o contraste é menor]”, ela reflete.

Em 1933, o batom foi definido pela Vogue como o cosmético mais importante pra uma mulher. Isso fez com que suas vendas continuassem a crescer nos EUA mesmo quando a economia ia mal, durante a Grande Depressão. Foi o que inspirou o “efeito batom”, termo criado por economistas pra se referir ao fenômeno que faz com que, em tempos de crise, a venda de cosméticos aumente.

A partir da 2ª Guerra Mundial, a força de trabalho passou a ser cada vez mais feminina. Elas se tornaram donas do próprio dinheiro, podendo pagar por seus produtos de beleza. Assim, o batom virou também um ícone da independência financeira das mulheres.

Isso me lembrou de uma matéria que li em 2012 e nunca mais esqueci, sobre como o Bolsa Família trouxe poder de escolha pras mulheres que viviam nas áreas mais pobres do Brasil. O texto, publicado na Marie Claire, é um depoimento da antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo, que passou cinco anos andando por aquelas regiões. As mulheres eram maioria como titulares do programa social [criado durante o primeiro governo do presidente Lula, em 2003], e as entrevistadas mostraram como esse poder de decisão estava transformando suas vidas — desde escolher o que comprar até decidir se queriam ou não continuar com seus maridos.

“Há mais liberdade no dinheiro”, disse uma delas, chamada Edineide, moradora de Pasmadinho, no Vale do Jequitinhonha. “Quando o marido vai comprar, ele compra o que ele quer. E se eu for, eu compro o que eu quero.” O que me marcou, e que me traz de volta ao tema desse texto, foi o seguinte trecho: “Elas passaram a comprar Danone para as crianças. E a ter direito à vaidade. Walquiria testemunhou mulheres comprarem batons para si mesmas pela primeira vez na vida. Finalmente, tiveram o poder de escolha. E isso muda muitas coisas“.

Mais recentemente, em 2018, a Nicarágua teve o movimento #YoSoyPicoRojo (“eu sou boca vermelha”), em apoio à libertação de manifestantes contra o governo. O movimento foi inspirado pela socióloga Marlen Chow Cruz, que foi detida e levada pra prisão El Chipote. Ali, ela encontrou um batom vermelho, e compartilhou o item com todas as companheiras de cárcere.

Hoje, ainda bem, somos mais livres pra usar batom vermelho como quisermos, e, por aqui, acreditamos muito na força desse ícone. Se você tá precisando de um empurrãozinho pra escolher seu novo companheiro pra todas as horas, vem ver a seleção dos batons favoritos da nossa equipe.

Da esquerda pra direita:
Batom Silky Crème Laura Mercier – cor Rouge Électrique
Powermatte Lip Pigment NARS – cor Don’t Stop
Batom Matte Mariana Saad by Océane – cor Real Red
Batom Retro Matte M.A.C. – cor Ruby Woo
Batom Skinny Matte Niina Secrets com Eudora – cor Vermelho Hibisco
Batom Matte Kunst – cor Milan
Batom Líquido Power Stay 16h Avon – cor Vermelhaço
Batom Matte M.A.C. – cor Russian Red
Batom Matte Quem Disse Berenice – cor Vermelhou
Batom Le Rouge Deep Velvet Givenchy – cor Rouge Grainé
Batom L’Absolu Rouge Drama Matte Lancôme – cor Rose


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