Seu cabelo caiu depois da Covid?

É uma estranha coincidência que nossa newsletter de hoje fale sobre queda de cabelo pós Covid, enquanto o “fórum da internet” debateu nos últimos dois dias se foi certo ou errado assistir a uma mulher sendo humilhada ao vivo por sofrer de Alopecia areata, uma doença autoimune que pode fazer com que a pessoa perca os cabelos e pelos no corpo todo. Enquanto a primeira é uma condição nova, cujas causas e os reais impactos na nossa vida a gente ainda tá começando a entender, a segunda já tem muitos dados que nos ajudam a desmistificar essa doença: ela acomete cerca de 5% da população mundial, e é mais comum em mulheres. Nesse recorte, as mulheres negras, como Jada Pinkett Smith, tendem a sentir ainda mais, um estudo do Jornal Internacional de Dermatologia mostra que 11% das mulheres de ascendência africana são afetadas, contra 5% das mulheres de outras origens. As causas variam entre genéticas, virais (como no caso da Covid), hormonais ou podem envolver fatores psicológicos — e o tratamento depende muito da causa, então, na menor suspeita, procure sempre dermatologistas.

O fato é que esse email já estava programado e fala sobre outro tipo de queda, cada vez mais comum, já que ela acontece algumas semanas depois que você comemora aquele PCR ~finalmente~ negativo.

Vivemos até aqui graças à vacina e aos cuidados que tomamos, e não temos como negar que, de todas as sequelas que a Covid pode deixar, a queda de cabelo parece sopinha no mel. Acontece que somos uma comunidade de beleza, e acho importante entender o que rola com nosso cabelo nesse processo, até porque eu mesma vi tufos e mais tufos caírem depois daquele surto da Ômicron no começo do ano.

Talvez você esteja passando por isso e nem percebeu que pode estar ligado à Covid, talvez conheça alguém que precise dessas informações, ou esteja super chateada sem saber o que fazer, vendo seus fios irem embora pelo ralo. Quando falamos de cabelo, falamos de um assunto que mexe demais com a nossa autoestima e autoconfiança. E cada pessoa vai saber o quanto isso pode ser um assunto doloroso ou delicado pra ela, combinado?

Fiz essa entrevista com a Dra. Glaucia Ferreira Wedy, que é tricologista, uma dermatologista especialista em cabelos, e atende no consultório da minha dermato, onde eu estava reclamando dos meus tufos indo embora. Comentei que meu cabelo caía aos montes pós Covid e ela me chamou na sala dela pra dar uma olhada, enquanto me explicava porque isso pode acontecer. Na mesma hora falei: Glaucia, espera aí, conta isso na minha newsletter?

E aqui você lê a entrevista na íntegra.

Um mês depois que acabou minha Covid, comecei a perceber muitos fios de cabelo pelo chão da casa, na roupa e perucas inteiras que saíam depois de me pentear. E aí me liguei que muita gente dizia que teve queda pós Covid. Mas por que isso acontece?

Depois de um quadro de infecção, como a Covid, o corpo passa por um stress oxidativo, em que várias substâncias pró-inflamatórias, como o óxido nítrico, são produzidas no organismo. O corpo tem uma tendência à sobrevivência, então ele leva as vitaminas e minerais pros órgãos que considera mais essenciais, como o coração, cérebro e pulmão, e o organismo entende que cabelo não é algo tão essencial pra sobrevivência. O aporte de nutrientes pros fios diminui, e acredita-se que o próprio vírus da Covid pode provocar um processo inflamatório no bulbo, de onde sai o fio. Acontece um tipo de agressão no fio, e algumas semanas depois ele pode começar a cair — essa queda mais aguda é chamada de eflúvio. O tipo mais comum, que tem relação à Covid, é o eflúvio telógeno.

Grande parte dos fios, 90% deles, está na fase anágena, que é a fase de crescimento, e o tempo dela é totalmente individual, pra alguns pacientes dura 6 anos, pra outros 8 anos, que é o que diferencia um paciente que tem um cabelo mais longo de um que tem um cabelo mais curto e reclama que o cabelo nunca fica longo. Isso é determinado geneticamente. Esses fios entram em fase de queda, e isso também é totalmente individual. Semanas depois esses fios começam a se desprender — não caem todos de uma vez, mas uma quantidade bem maior de fios passa a cair.

Nós podemos ter um evento estressante no corpo — e esse evento pode ser uma queda de vitaminas, luto, cirurgias, uso de medicações, Covid, dengue — e, normalmente, de dois a três meses depois o cabelo começa a cair. Há pacientes que relatam que essa queda começa até antes, e ela dura entre dois e três meses, depois diminui, o couro cabeludo estabiliza e volta a crescer.

Você lembra no começo da Covid quando os pacientes começaram a chegar relatando essa queda? Como foi?

Logo depois do início da pandemia, a gente começou a atender vários pacientes com queda de cabelo, dois ou três meses pós infecção. Ainda não se entendia e ainda não se entende muito bem como o vírus age nisso, mas a gente faz uma analogia pra uma outra doença que também provoca febre no corpo, que é a dengue. O bulbo sofre, e esses fios começam a cair, isso dura entre dois e três meses, desde que a gente não tenha outro fator estressante que piore o quadro, como uma reinfecção, vacinas, luto, internações prolongadas — tudo isso pode piorar e prolongar a queda de cabelo.

Existe alguma porcentagem de pessoas que passam por ela, ou como todas as sequelas da Covid é algo que não sabemos o que esperar?

A Covid é uma doença super nova, né? Então a gente não entende como vai ser o funcionamento, como o corpo vai responder. O que a gente tem observado é que as quedas de cabelo pós Covid se recuperam. Os pacientes que eu acompanho têm uma melhora bem importante, mas tudo vai depender se essa pessoa já tinha outras doenças capilares associadas, como uma calvície que às vezes não foi diagnosticada. É isso o que costuma determinar a quantidade de fios que vão ser recuperados.

Como perceber se meu cabelo tá caindo realmente ou se é a quantidade normal de fios que perdemos por dia?

A percepção da queda de cabelo é bem individual, o paciente já está acostumado com a quantidade de fios que vão cair todos os dias. A gente estima que até 100 fios seja um número normal. Quando você percebe que há uma queda mais intensa do que aquela que você já tinha, a indicação é procurar uma dermatologista.

Existe algum tipo de vitamina ou cuidados na alimentação que podemos começar a fazer desde o primeiro teste positivo pra fortalecer os cabelos?

Nenhuma vitamina ou procedimento pode parar e reverter os fios que já foram programados pra cair. O que a gente consegue é melhorar o aporte de vitaminas pros próximos fios que vão crescer. Mas os que já foram determinados a cair, vão cair. A gente dá vitaminas e acompanha o paciente pra que os próximos fios tenham capacidade de crescer na sua proporção máxima.

Como funciona um tratamento pra essa queda? Quanto tempo ela dura em média?

A consulta sobre queda capilar é bem longa, geralmente dura uma hora ou uma hora e meia. Nessa consulta fazemos várias perguntas sobre os hábitos de vida, se o paciente faz dieta, se tem restrições alimentares, se faz uso de alguma medicação. Existe um exame específico pro couro cabeludo, chamado tricoscopia, que mostra pro paciente como estão seus fios. Tem também o teste de tração positivo, em que eu puxo o cabelo e vejo a quantidade de fios que sai desse local. Além disso, sempre solicito alguns exames pra gente checar se tem mais alguma coisa que possa estar piorando essa queda de cabelo, como deficiência de vitamina D, vitamina B12, ferritina, anemias, alterações de tireoide e alguns processos inflamatórios.

Tem vários mitos que achamos que tem a ver com queda de cabelo, tipo lavar menos ou mais, tingir, escovar menos ou mais, prender. Quais deles realmente prejudicam ou aumentam a queda, e quais podem ajudar nessa fase?

O que a gente observa é que quando o paciente começa a ter queda de cabelo, passa a lavar menos, porque quando lava, percebe que o cabelo cai. Quando você fica 2 ou 3 dias sem lavar o cabelo, acaba achando que, quando lava, cai uma quantidade muito maior, só que na verdade você acumula aquela quantidade dos dias que ficou sem lavar. Escovar e tingir o cabelo não pioram a queda capilar, desde que você não tenha um quadro de alergia à tinta, porque esse quadro pode levar a um outro tipo de queda, por irritação ou dermatite de contato.

A queda capilar, assim como o afinamento, mexem muito com a autoestima das pessoas. O que você costuma falar pras suas pacientes que estão enfrentando esse momento?

O cabelo tem um significado muito importante pras pessoas, está ligado à autoestima e sensualidade, tanto pra homens quanto pra mulheres. É comum ver mulheres chegando no consultório muito preocupadas em perder seus cabelos, a gente sabe que os eflúvios se recuperam e precisamos fazer um diagnóstico precoce, pra ver se o couro cabeludo não tem outras doenças associadas e o suporte emocional sempre importa. Não podemos subestimar quando uma paciente chega com relato de queda de cabelo, temos que entender se o cabelo está caindo agora, se faz meses, se sempre caiu, entender se não é queda mas o cabelo está ficando mais fino. São perguntas que direcionam nossa consulta pra definir o melhor tratamento pra paciente.

Hoje a gente sabe que existem vários medicamentos de tratamento do couro cabeludo e dos fios. Pra calvície temos um tratamento, pra queda aguda temos outro, pra quedas longas, de meses ou anos de eflúvio crônico, temos outro tratamento. Mas a paciente tem que ser sempre muito bem acolhida, porque a parte emocional conta muito, e quanto mais estressada e ansiosa ela ficar, mais processos inflamatórios são gerados dentro do organismo e mais queda capilar pode acontecer.


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