Quando um procedimento estético pode te fazer se sentir melhor?

Você já sentiu vontade de mudar alguma característica do seu rosto depois de se ver com um filtro do Instagram? Já se pegou considerando um procedimento estético depois de ser impactada por um antes e depois impressionante? Ou talvez já tenha comparado sua aparência com a de alguma influenciadora com uma realidade bem distante da sua? Se a resposta foi sim pra alguma dessas perguntas, você não está sozinha.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a busca por procedimentos estéticos não-cirúrgicos aumentou 390% no país. Entre as intervenções mais buscadas, de acordo com o Censo de 2016, estão o preenchimento labial, a aplicação de botox, peeling, laser e suspensão com fios [para levantar a pele com flacidez e preencher rugas]. Durante a pandemia, a procura por esses procedimentos teve um crescimento ainda maior — no Google, a busca por “harmonização facial” subiu 250% no último ano.

Além do tempo maior em casa, que facilita o período de recuperação, esse aumento tem a ver com o fato de as pessoas passarem cada vez mais tempo encarando a própria imagem em videochamadas e reuniões online — e, consequentemente, encontrando novos incômodos na aparência. Como resultado direto dessa insatisfação, houve ainda um aumento no número de rinoplastias e de cirurgias de pálpebras nos últimos meses.

Em meio a todo esse boom, um movimento contrário chamou nossa atenção: algumas personalidades viraram notícia justamente por optar pelo caminho reverso, removendo preenchimentos labiais e faciais e propondo reflexões sobre envelhecimento e os limites da estética. O caso mais notório é o da supermodelo Linda Evangelista, que revelou recentemente ter passado por um procedimento estético pra redução de gordura há seis anos e sofrido um efeito colateral irreversível. O tratamento, chamado CoolSculpting, foi procurado por Linda justamente por ser conhecido como uma alternativa não invasiva à lipoaspiração, mas ela acabou passando por um processo de hiperplasia, segundo um especialista entrevistado pela revista People, que faz com que o tecido adiposo engrosse e se expanda, em vez de reduzir.

A modelo já passou por duas cirurgias plásticas pra tentar resolver o problema, mas não teve sucesso. Ela conta que não consegue se olhar mais no espelho: “Eu não me reconheço mais fisicamente, e também não me reconheço mais como a pessoa que eu era. Ela desapareceu”. Agora, Linda quer usar tudo o que passou pra ajudar outras pessoas que estiverem passando pela mesma situação.

Há algumas semanas, a atriz Courteney Cox — a Monica, de Friends — também comentou sobre os procedimentos estéticos que fez no passado: “Tem um momento em que você se dá conta de que: ‘Ah, eu estou mudando, estou envelhecendo’. E eu tentei perseguir essa juventude por anos. E não percebi que estava ficando realmente esquisita com todas as injeções e com tudo o que estava fazendo no rosto, que eu jamais faria agora”, disse ela em entrevista ao jornal The Sunday Times Style. Em 2017, Courteney passou por um tratamento de remoção de todos os seus preenchimentos faciais.

A influenciadora Flavia Pavanelli seguiu caminho parecido: ela decidiu tirar o preenchimento de ácido hialurônico que tinha nos lábios e optou por voltar a um visual mais natural.

“Kenhé essa gata maquiada sem preenchimento labial?”, escreveu a influenciadora

Mas como funciona esse processo de remoção dos preenchimentos? Os procedimentos estéticos são mesmo reversíveis? A gente ficou com essas questões na cabeça e foi tirar as dúvidas com o dermatologista Thiago Cunha. “Os procedimentos estéticos não-cirúrgicos, na sua maioria, são reversíveis, o que não quer dizer que seja um processo fácil”, diz ele. “Sobre a remoção do preenchimento de ácido hialurônico, o que se faz é a aplicação injetável da enzima hialuronidase no local do próprio preenchimento. Ela já começa a fazer efeito na hora e por 24h você ainda pode ter uma ação desse composto. É uma aplicação realizada em consultório, pouco dolorida, mas, na maioria dos casos, é necessário repetir as sessões até conseguir uma correção satisfatória. Uma outra questão é que a enzima não escolhe qual ácido hialurônico vai degradar, então ela pode acabar agindo sobre o ácido natural, que já está presente na pele, e não só sobre aquele que foi injetado”, explica o médico.

E o que uma pessoa precisa saber antes de optar por um procedimento estético? Quais os pontos mais importantes pra que ela não se arrependa depois? Thiago recomenda, em primeiro lugar, se informar a respeito dos riscos, do que vai ser feito no procedimento e procurar um profissional capacitado. “Em geral, esse tipo de procedimento deve ser realizado por médicos dermatologistas e médicos cirurgiões plásticos, que são mais capacitados para lidar com possíveis complicações. Mas, além da informação, a pessoa precisa entender o que ela está buscando de verdade. Esse é um tipo de cuidado que ela está fazendo por ela mesma, no sentido de melhorar a própria aparência, ou está caindo em comparação com alguém que fez? Eu acho que, antes de tudo, ela deve se questionar sobre o porquê. Se é pra ela mesma, livre de comparações e influências externas, já é um bom caminho pra evitar frustrações futuras.

O dermatologista destaca ainda que o tratamento estético deve ser um recurso a favor da saúde mental, e não contra ela. “Cerca de 30% das pessoas que frequentam consultórios dermatológicos podem apresentar algum grau do transtorno dismórfico corporal [percepção distorcida da própria imagem]. E essa pessoa vai buscar incessantemente uma correção que nem sempre é possível. É papel do médico identificar esse tipo de situação e, com muito acolhimento, fazer uma avaliação não só física, mas psicológica do paciente.” 

Pra que os procedimentos não se transformem em uma grande frustração, a comunicação honesta é o melhor caminho: “Eu digo: ‘Olha, isso infelizmente não dá porque sua anatomia não é favorável, ou porque isso em você não vai trazer um resultado bonito, satisfatório.’ Com esse tipo de conversa e com bastante escuta, é possível chegar em um equilíbrio, que consiste justamente em avaliar as queixas da pessoa e as possibilidades terapêuticas e técnicas. E chegar em um resultado que seja bom para os dois lados, para a aparência e para a saúde mental”, completa o dermatologista.

Por aqui, a gente sempre defende que as pessoas encontrem aquilo que as faça se sentir bem, e a beleza — procedimentos estéticos inclusos — tem papel importante nisso. Mas, antes de tudo, é importante entender qual é sua a real motivação ao buscar uma mudança na aparência. Por mais que muitos desses procedimentos sejam reversíveis, a frustração e o impacto na autoestima podem ser muito mais difíceis de retomar. E lembre-se sempre: consulte dermatologistas!


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