As jovens artistas brasileiras que dialogam com a beleza em suas obras

O que Larissa Carvalho, Rafaela Kennedy e Cyshimi têm em comum? À primeira vista, não muito além do fato de serem jovens artistas promissoras dentro do cenário contemporâneo brasileiro. Entre telas, fotografias e unhas esculturais, cada uma escolheu linguagens e formatos muito diferentes entre si para se expressar por meio da arte. Mas basta um olhar atento para perceber as semelhanças, a começar por um tema que permeia o trabalho das três: a beleza. 

A partir de experiências, memórias, dores e questionamentos pessoais, as artistas exploram esse universo de maneiras particulares, seja como uma forma de conexão com sua ancestralidade, como resgate de memória afetiva ou como uma medida de resistência, transformando a maneira como belezas racializadas e queer são vistas. Contamos mais sobre cada uma delas a seguir. 

Rafaela Kennedy 

Os registros na câmera de Rafaela Kennedy são um reflexo de sua própria trajetória — não só porque muitas das personagens têm vivências parecidas com a sua, mas porque põem em prática um exercício de imaginação poderoso: em suas fotografias, existências travestis e transgêneras são celebradas. Elas não estão à margem, mas ao centro, vivendo. “Sinto que estou aprendendo a fazer magia com a fotografia”, conta a artista manauara, que tem os retratos como principal forma de expressão de seu trabalho. Rafaela percorreu um longo caminho desde seu primeiro contato com a câmera, no começo dos anos 2000, graças às redes sociais da época (oi, Orkut e Fotolog!). Hoje, radicada em Campinas, ela se dedica a contar histórias de mulheres trans e travestis por meio das imagens. 

“Certa vez minha mãe travesti Manauara Clandestina disse: ‘Eu vejo beleza na verdade’, e isso ficou marcado em mim. Há muita verdade na história de todes nós que um dia decidimos não nos apequenar dentro de um universo tão grande e cheio de possibilidades”, diz a artista. Há também beleza. Muitos dos seus registros carregam elementos impactantes desse universo — unhas longas, batons coloridos, cabelos com tranças enormes. “Não tem como falar de travesti brasileira sem falar de beleza”, constata Rafaela. “Todos esses elementos dizem muito sobre o que cada pessoa carrega em si, suas histórias e a forma como constroem sua autoestima. Nossa cultura se formou nas esquinas, nas ruas, na capacidade de transmutar signos sociais. Eu amo a grandiosidade das travestis e cada vez mais tenho colocado isso nas obras. Quero projetar nossa grandeza para o mundo, especialmente as belezas indígenas e negras, e realçar a vida no meu trabalho, as nossas vidas.”

Larissa de Souza

A conexão de Larissa de Souza com a arte passou por um processo de aceitação dos seus traços, tanto nas telas quanto em frente ao espelho. O primeiro, artístico, aconteceu quando ela conheceu outros estilos de pintura além do europeu, aproximando-se de artistas afro-diaspóricos. Já o segundo significou um encontro profundo com sua identidade e suas memórias, que passaram a ser representadas nas pinturas. Temas ligados ao cotidiano, à ancestralidade e momentos de afeto que teve com a mãe e a avó passaram a ocupar as telas de Larissa. 

“Eu comecei a trabalhar com temáticas mais subjetivas, relacionadas às minhas vivências e ao cotidiano das pessoas pretas. Mesmo que os personagens não se pareçam totalmente comigo, eu me vejo ali de alguma forma, na essência, no sentido de ser a minha história”, explica a artista paulista. Além de incorporar novas técnicas em seu processo criativo, como a aplicação de folhas de ouro e de búzios, ela começou a estudar diferentes tipos de cabelos e penteados afro para representar em suas obras, caso de ‘Beleza ancestral’.

“Desde criança, eu aprendi a odiar o meu cabelo. Minha mãe é uma mulher preta que passou pela mesma situação. Era algo comum entre as mulheres da nossa comunidade, que se reuniam para alisar os cabelos das filhas. No começo, era uma tortura, porque o cheiro era muito forte e ardia a cabeça. Depois, fui me acostumando e entendendo que a dor fazia parte do processo de ser ‘bonita’. Na minha adolescência, não saía de casa sem alisar o cabelo — primeiro usava um ferro de passar, depois ganhei uma chapinha. Até que chegou um dia, numa fase difícil da minha vida, em que me tranquei no quarto e cortei todas as partes com química do meu cabelo. Depois disso, eu me tornei uma borboleta. Hoje, eu tento ao máximo ser eu o tempo todo, mesmo que às vezes seja difícil. Acho que essa relação pessoal, que muitas vezes também é coletiva, reflete nas minhas criações porque o cabelo é ancestral, é a nossa identidade“, ela explica. 

Na obra ‘Me enxergar novamente’, a ação da personagem remete ao corte de cabelo transformador que a própria artista conta ter feito — e pelo qual muitas outras mulheres passam durante a transição capilar. “Eu fiquei por muitos anos sem saber como era o meu cabelo. A obra é sobre se ver e lembrar de quem você realmente é.”

Cyshimi

Cyshimi transforma as unhas em esculturas performáticas. Para a artista multidisciplinar, as unhas são também um espaço de experimentação visual e de extensão das suas pesquisas sobre ancestralidade decolonial, identidade, corpo e beleza. Junção de ‘cyber’ e ‘sashimi’, Cyshimi é o nome artístico de Viviane Lee Hsu, brasileire de ascendência chinesa e taiwanesa.

“O que me cativa em estudar a história das unhas é ver as infinitas formas em que ela pode se dar e qual a raiz do que conhecemos hoje, desde a nobreza egípcia e chinesa que via nas unhas uma forma de poder e status, passando pela Flo Jo [apelido de Delorez Florence Griffith-Joyner, atleta norte-americana especializada em provas de velocidade] uma atleta profissional que manteve suas unhas longas e decoradas, até um coletivo de mulheres que cria comunidades a partir do cuidado das unhas. Tudo isso tem a ver com uma forma de resistência, um empoderamento de si, da sua individualidade”, afirma Viviane.

Em suas criações, Cyshimi usa técnicas de alongamento para brincar com cores, formatos, texturas, camadas e até efeitos tridimensionais nas unhas. “Como eu não tinha proximidade com outres manicures e artistas de unha, minha trajetória de aprendizado foi solitária, a partir da tentativa e erro, adequando o que via para as minhas vontades e, principalmente, criando minhas próprias técnicas”, conta. Agora, com mais experiência, consegue conectar pintura, escultura e arte digital por meio das unhas, chegando em resultados únicos a cada vez. “Eu tento trazer uma nova narrativa, um novo mundo para cada conjunto de unhas. Passei por um embate difícil entre ‘o que é utilitário para as unhas’ versus ‘o que eu gostaria de materializar’, e agora tenho chegado a um acordo entre os dois.

Para Cyshimi, as unhas são uma maneira de desafiar a normatividade estética e se conectar com sua própria identidade. “Existe um outro senso de beleza em movimento, em contraposição a uma beleza estática e hegemônica. As unhas são uma extensão do corpo que nos acompanham no dia a dia e moldam o nosso estilo de vida. Elas são esculturas performáticas, algo sintético conectado ao nosso corpo, um corpo que vive e se movimenta”, completa.


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