O que saber sobre cicatrizes, o que elas significam e quando tratá-las

Publicado em 30 de julho de 2021 por .

O quadro The Dream (1932), do espanhol Pablo Picasso

Cicatrizes: um “defeito” ou parte da nossa história? Tipo uma tatuagem involuntária, mostrando um momento ou uma fase da nossa vida, sabe? Como aquela ferida que deixou uma marca durante uma traquinagem na infância, um pequeno arranhão de uma aventura qualquer, uma queimadura que aconteceu enquanto você fazia uma comida numa viagem, ou até mesmo o vestígio de uma acne. “Nossas cicatrizes contam histórias. Momentos de dificuldades, de superação de força. Simbolizam a nossa evolução e por tudo que nós passamos”, reflete a dermatologista Giovanna Zalla, sobre como ter uma relação mais gentil com as nossas cicatrizes. Todas nós temos algum tipo de cicatriz, um evento em que a pele precisou de uma reparação de tecido e ela não ficou exatamente igual à pele anterior. Esse processo pode variar de acordo com a lesão que a pessoa sofreu, o local e o tipo de pele. Segundo Luiza Coutinho, cirurgiã plástica do Hospital Federal de Ipanema, “a cicatriz é um tecido novo que se forma durante o processo de cura de uma ferida. “A pele íntegra representa uma barreira de proteção contra agentes externos e a cicatriz representa reconstrução dessa proteção após o trauma”, explica.

As cicatrizes são formadas a partir das fibras colágeno e as células de tecido da derme. “Você vai ter um processo inflamatório de dilatação de vasos sanguíneos, de vermelhidão. Isso tudo faz parte do processo normal de cicatrização. Aí há a ativação de células de tecido da derme, de fibroblastos, para produzir o colágeno, que é o que vai também ajudar nesse processo cicatricial. É muito importante a participação dessas células dos fibroblastos para isso”, explica Patrícia Silveira, dermatologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em dermatologia natural .

Nesse processo de recuperação da pele, há vários tipos de cicatrização: as normotóficas são quando o local da lesão fica igual ao estado anterior à lesão. Já as cicatrizes hipercrômicas tendem a pigmentar o local do trauma, deixando a pele mais escura. Ao contrário da hipocromia, que deixa a região mais esbranquiçada. As atróficas são aquelas que formam um buraco na pele. A hipertrófica é a cicatriz mais elevada que respeita a borda da ferida. Possui níveis normais de colágeno e costuma diminuir com o tempo. Diferente dos quelóides, que aparecem em alto relevo e pele grossa, causada pela produção exagerada de colágeno. As cicatrizes de acne, por exemplo, podem ser de vários tipos, geralmente as atróficas e as ice pick (aspecto de gelo picado), que são mais finas e profundas. “Elas podem acontecer tanto pelo ato de espremer ou pela própria inflamação causada pela acne”, informa Giovanna. Para não formar a cicatriz de acne, a orientação da dermatologista Patricia Aguiar é tratar desde as primeiras lesões inflamatórias, com uma rotina de skincare. “Eu gosto muito das limpezas de pele periódicas. E na dermatologia natural, tem suplementações de fitoterápicos, reposição de vitaminas e minerais, e os probióticos que acabam controlando a acne de uma forma de equilibrar o organismo”, orienta Patricia. 

O processo de cicatrização e o tipo de cicatriz, além de depender da região e do tipo de machucado, leva em conta também a genética da pessoa, o tom e o tipo de pele. “As peles secas tendem a cicatrizar de maneira mais lenta. As mais oleosas e as mais hidratadas costumam a cicatrizar de maneira mais rápida. As áreas do rosto cicatrizam mais rápido e melhor que as áreas do corpo, como a perna e a canela”, conta Patrícia. “Em pessoas de pele negra, por exemplo, é comum a formação de  quelóides e cicatrizes hipertróficas. Pelas fibras de colágeno serem mais espessas, há uma deformação na degradação desse colágeno, e por isso temos uma tendência maior a quelóides”, explica dra Kathleen aqui.

Beleza, então você já sabe que a cicatriz é reparação tecidual que acontece de acordo com a intensidade e profundidade da lesão. Partindo desse princípio, laser e peelings geram lesões na pele, mas por que eles não formam cicatrizes? Porque são queimadura e lesões controladas que atingem a camada superficial da epiderme e da derme. Giovanna Zalla, especialista conta mais detalhes para a gente entender. “As microqueimaduras controladas geram uma inflamação que vai aumentar a produção de colágeno e elastina. É por isso que todo procedimento que gera lesão, seja ele laser, peeling químico, ultrassom microfocado, acaba servindo para estímulo de colágeno. Eles não geram cicatrizes porque essas lesões são pontuadas com microagulhamentos entremeados por peles sem lesão, ajudando na recuperação mais rápida e sem cicatriz. Mas se essas queimaduras começam a se aprofundar muito, ou são muito intensas, então a chance de gerar uma cicatriz é muito maior”, esclarece.

É bom salientar que os tratamentos para cicatrizes não são mandatórios: só acontecem se o dono ou a dona da cicatriz se incomoda esteticamente com ela. Cada caso é avaliado individualmente e pode pedir várias sessões. Vão desde peelings suaves e microagulhamento até lasers fracionados, os últimos muito usados nas cicatrizes de acne. 

Acima de tudo, é legal entender que as cicatrizes fazem parte de um processo natural do nosso organismo, e tudo bem você ter uma marca e outra, pois cada uma delas conta uma história sobre a sua vida. “Enxergo a nossa pele como uma página em branco, que vamos pintando ao longo da vida. Fazer as pazes com as marcas e entender que elas  não são marcas físicas, mas fazem parte de quem nós somos pode ser muito legal”. Um gesto lindo e de delicadeza da dermatologista Giovanna Zalla.  

 

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