Você toma banho todos os dias? Então também precisa meditar

Publicado em 23 de julho de 2021 por .

Foto: Jazzie Moyssiadis

Antes de começar a escrever esse texto, pratiquei uma meditação de 10 minutos. Estou longe de poder ser classificada como uma meditadora, tampouco sou capaz de passar todo esse tempo concentrada. Acontece que, depois de ouvir o que ouvi pesquisando para escrever essa reportagem sobre se é possível aprender a meditar em casa (a ideia inicial era essa), comecei a olhar a meditação não apenas como mais uma opção entre várias de relaxamento em meio ao caos da pandemia ou mesmo à correria que, sendo sincera, a minha vida já era, mesmo antes do advento do Covid-19. Na verdade, será que a correria e, mais do que isso, o atropelamento que virou nossa vida, não vem também da maneira como a nossa cabeça funciona? “O ser humano tem de 12 mil a 50 mil pensamentos diários. Imagine que estamos permanentemente conectados nesse mundo de informações e estímulos externos que bombardeiam nosso sistema nervoso central. Segundo a tradição milenar da Índia, a mente não se aquieta por si só, a mente se aquieta através da respiração”, diz Marcia de Luca, professora e estudiosa da Ayurveda e da meditação há mais de 40 anos, com cerca de 5 mil alunos ensinados. Junte essa informação de no mínimo 12 mil pensamentos (esse texto da Newsweek fala em 6 mil, mas, a essas alturas, quem está contando?) passando pela sua cabeça diariamente com o dado de que, ao contrário do que a gente costuma achar, quase metade deles, 47%, são desordenados na mente. E que nem tudo o que a gente pensa é para fazer sentido ou provocar reflexão, muito pelo contrário: a maioria está lá como fruto de sinapses aleatórias do nosso cérebro. O que leva à analogia da meditação com o banho, feita pelo monge Satyanatha e que acabou indo parar no título desse texto porque, afinal, é muito poderosa e faz muito sentido. Segundo ele, da mesma maneira que tomamos banho todos os dias para limpar as sujeiras e evitar doenças, e do mesmo jeito que nos banhamos para nos sentir renovados, também precisamos limpar a mente diariamente. O banho da mente é a meditação.  

Não aprendemos sozinhos a nos limpar. Foi todo um processo, que começou com a observação dos nossos pais dando banho na gente, depois passou por um momento de, digamos, ensinamento das técnicas de ensaboamento e enxágue, até que, em algum momento entre os 4 e os 7 anos, aprendemos a tomar banho sozinhos. Mas ninguém ensinou a gente a respirar, controlar nossos pensamentos e aquietar a mente. E quando ouvimos falar sobre meditar, já vem uma informação de que para meditar é preciso não pensar em nada. Mas como assim, com até 50 mil pensamentos todo dia passando pela cabeça?

Verdades sobre meditação: é normal que pensamentos invadam a sua prática. A ideia não é não pensar em nada, mas aprender a gerenciar os pensamentos. Segundo Satyanatha, é só deixá-los passar, assim como a gente vê passarem os carros na rua. Conte três segundos e retorne o foco para a respiração ou para a visualização, dependendo do tipo de meditação que escolher. Lembre-se de que meditar é um treino e uma conquista diária, e tudo bem ter dia que vai melhor, outros que vai pior. “Foque na respiração, sem julgamentos, sem questionamentos, apenas… observando. O praticante se torna o observador de si próprio: ar entrando, ar saindo. Sempre que se lembrar, ao longo do dia, traga sua atenção plena de volta para sua respiração. A repetição dessa ação vai formar o hábito do aquietamento da mente em preparação para a meditação propriamente dita”, diz Márcia. Outro fato: não precisa começar, logo de cara a meditar por 10, 15 minutos. Não é isso que vai garantir que você se transforme num meditador.  “Iniciar a prática observando o fluxo natural e espontâneo da respiração por cinco minutos é um bom começo. O lema é devagar e sempre, para não desistir”, aconselha Márcia.  

Dona do salão Laces, de tratamentos naturais para o cabelo, e representante da Aveda, marca americana de produtos capilares com base na Ayurveda, Cris Dios começou a meditar há 5 anos. “No começo é muito difícil, você arruma mil desculpas para não fazer, como tudo na vida quando a gente começa. O que me fez passar da meditação eventual para a diária foi me dar conta de que a meditação é um veículo pelo qual você silencia a mente para iniciar um diálogo com a sua alma, com o que realmente faz sentido nessa vida”, diz. Ela conta que geralmente medita entre 15 e 20 minutos todos os dias, mas quando não tem tempo, faz cinco minutos, e tudo bem: o importante é ter esse momento que ela considera de higiene mental. O tipo de meditação também não é o mais importante. “Comecei com os 21 dias de meditação da Márcia de Luca. Hoje pratiquei mindfulness, mas gosto de variar. Faço bastante também as meditações guiadas, acho maravilhosas.” Esse é outro ponto importante: não existe uma modalidade de meditação melhor, todas funcionam, contanto que você se identifique e persevere nela. “Pratico a meditação no Som Primordial que aprendi com o dr. Deepak Chopra. Repito mentalmente o som que vibrava no universo no momento do meu nascimento. Mas sim, as dicas para a prática são sempre iguais”, ressalta Márcia.  

Segundo a especialista, é melhor aprender com alguém, mas também é possível meditar sozinho, em casa. “Ensino sempre para meus alunos a importância do trio maravilha: intenção, disciplina e dar tem o tempo… Sem isso, não vamos a lugar nenhum! Em primeiro lugar, temos que querer, a partir daí, praticar, praticar, praticar para formar o novo hábito. E então dar tempo ao tempo, porque nenhum hábito é formado sem repetição. Aliás, muita repetição.” Não há uma regra sobre a partir de que momento os efeitos da meditação começam a aparecer, mas Márcia afirma que, para os indianos, já se nota diferença logo no início. Estudos mostram o aumento de foco num teste de duas semanas com pessoas que praticaram a modalidade mindfulness, técnica desenvolvida nos anos 70 por um médico americano a partir de uma meditação milenar chamada Vipassana que, acredita-se, tenha sido criada pelo próprio Buda há mais de 2 mil anos. 

Mais foco, relaxamento, diminuição da ansiedade e clareza mental são benefícios da meditação conhecidos e comprovados cientificamente, mas vale sempre repetir. “As grandes religiões orientais já sabem disso há 2.500 anos. Mas só recentemente a medicina ocidental começou a se dedicar a entender o impacto que meditar provoca em todo o organismo. E os resultados são impressionantes”, disse Judson A. Brewer, professor de psiquiatria da Universidade Yale, numa entrevista à Veja há quase 10 anos. Não vou repetir todos os dados aqui, mas há comprovações de pesquisas apontando a diminuição do estresse, aumento da clareza mental e melhora de doenças psiquiátricas, como depressão e ansiedade, nas principais revistas científicas do mundo, além de instituições como a Harvard Medical School. Cris ressalta ainda um comportamento de quem medita que parece ser a chave para muitas questões: estar o mais presente o possível no momento. Um estudo (de novo da Harvard) chegou à conclusão de que não estar presente no momento causa sensação de infelicidade na maioria das pessoas. E infelicidade leva a depressão, tristeza, raiva, angústia… Parece que tudo está interligado.

Além de acalmar sensações ruins, a meditação também tem o poder, segundo Satyanatha, de nos estimular a ter emoções positivas, por meio da técnica de visualização, seja de lugares, seja de cores. “As pessoas dizem: ah, mas isso é só imaginação. Sim, seus pensamentos que provocam emoções ruins também são imaginação, também são criação da sua cabeça”, argumenta o monge em um de seus vídeos no Youtube.  “A meditação é a ferramenta mais poderosa de autoconhecimento, autodesenvolvimento e realização espontânea dos nossos desejos”, complementa Márcia. 

Entre as dicas de ferramentas para nos ajudar a aprender e a perseverar na meditação no conforto de nossos lares, há muitos aplicativos, mas eu ficaria com os das nossas fontes principais para esse texto. Os podcasts da Márcia de Luca, o curso dela no aplicativo Positiv Meditação, a Comunidade do Despertar, que ensina meditação, yoga e Ayurveda. Satyanatha tem vários vídeos em seu canal no Youtube e também criou todas as meditações do Vivo Meditação, aplicativo que possui várias meditações gratuitas. Vale tentar. No mínimo, como costumo dizer para mim mesma, você vai passar 5, 10 ou 15 minutos respirando lenta e corretamente. E isso, por si só, já é um baita benefício. No máximo, por meio de uma prática gratuita e sem contraindicação, vai revolucionar a sua relação com você mesma e com o mundo. 

 

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