Entrevista: como ser mais sustentável amando skincare, com Marcela Rodrigues, da A Naturalíssima

Publicado em 8 de julho de 2021 por .

Marcela Rodrigues, jornalista, designer em sustentabilidade, fundadora da plataforma A Naturalíssima e co-fundadora do site Limpp.com.vc, de glossário com análise de ativos da indústria da beleza

Amar skincare e desejar ter atitudes mais sustentáveis é uma contradição em termos? Não necessariamente. Pelo menos não se encararmos a sustentabilidade na beleza (e na vida) como um processo gradual, que depende tanto das marcas como das nossas atitudes individuais, numa jornada que está longe da perfeição, mas que tende, com as atitudes certas, a melhorar a cada dia. Para nos guiar por essa estrada onde só andamos para frente – afinal, ser uma bonita de pele é querer a beleza em tudo e para todos (em todos os sentidos) –, conversamos com Marcela Rodrigues, jornalista, designer em sustentabilidade, fundadora da plataforma A Naturalíssima e co-fundadora da Limpp.com.vc.

O que significa sustentabilidade quando a gente fala em consumo de beleza?
A sustentabilidade é baseada no impacto que ela gera em três áreas: social, ambiental e econômica. Na beleza é a mesma coisa, afinal, as marcas precisam fazer parte da economia. A gente sempre pensa em produto quando fala de consumo sustentável. Sim, sustentabilidade na beleza é comprar um produto mais responsável, mas é também investir em ações individuais para compensar o que elas não conseguem entregar. Costumo dizer que nem sempre vamos encontrar a marca sustentável perfeita, mas podemos complementar com as nossas atitudes: usando o produto até a última gota, mandando reciclar a embalagem, e assim por diante. 

É preciso comprar menos ou parar de comprar para se tornar mais sustentável?
Costumo dizer: existo, logo consumo. Faz parte desse processo a informação, o produto e a experiência. Mas todo consumo vai gerar um impacto. Por isso, tenho um manifesto que diz “mais ritual, menos produto”. Vou continuar comprando, mas o bem-estar vai depender do cuidado em si, não só da compra. Dessa maneira, cultivo a presença, a atenção plena e o senso crítico na beleza. A gente também  precisa desconstruir os conceitos de beleza. O que é beleza? Não é necessariamente sinônimo de produto. 

O que sai mais do produto e vai mais para a atitude?
Investir em microcoisas: trilha sonora no banho, por exemplo. Não necessariamente vai precisar da vela ou do sabonete com óleo essencial de gerânio, mas se pesquisar e colocar uma música especial, pode transformar sua ducha num banho holístico. Colocar intenção é a magia do ritual. E é claro que se tiver o pacote completo, também é muito legal, vira um banho de spa. 

Quais outras atitudes a gente pode ter para ser mais sustentável, ainda que comprando cosméticos?
A gente precisa mudar a cultura da relação com o consumo. Investir no consumo local reduz a pegada ecológica, valoriza as marcas pequenas e estimula a economia da região. Recebo muitas mensagens reclamando que determinada marca “não chega à minha cidade”, e respondo: será que não tem uma marca aí na sua região com uma proposta parecida? Reciclar embalagem é outro exemplo de atitude que pode partir da gente. Costumo ouvir muitas críticas em relação a marcas que são naturais e até mesmo orgânicas, mas que utilizam plástico. É claro que o ideal é que tudo seja sustentável, mas a embalagem é uma questão muito difícil no Brasil, então, ao invés de condenar a marca, talvez o mais produtivo seja se comprometer a reciclar a embalagem que ela ainda não conseguiu. 

Houve um boom, nos últimos anos, de marcas mais sustentáveis no mercado de beleza. Até que ponto isso é bom?Agora o mundo está despertando para o consumo consciente: o objetivo é continuar consumindo, porém com a preocupação de causar menos impacto socioambiental. Toda hora surge uma marca natural que diz preencher uma questão sustentável que antes não era contemplada, mas isso não é verdade . A gente já tem muita marca de beleza, e muitas delas contemplam tudo. Entendo que novas marcas vão surgir, mas será que a gente precisa de tantas assim?

Quais marcas de beleza sustentável já existem com propostas que as novas dizem que não havia no mercado?
A Cativa e a Almanati, por exemplo, são duas empresas pioneiras neste setor. A Bioart é outro exemplo. Tanto ela quanto a Almanati têm fábrica própria e muito controle de toda a produção, o que permite rastreabilidade das matérias primas, algo que nem toda marca que terceiriza a produção consegue fazer. Muitas vezes, essas marcas investem num marketing menos agressivo, e é nisso que acredito que muitas marcas de beleza consciente estejam se equivocando: a proposta é sustentável, mas o marketing ainda é o conservador e agressivo. 

Como achar esse equilíbrio, então?
O problema não é o consumo, é o consumismo. Tanto em termos de postura de marketing das marcas como do consumidor. É bom sempre se perguntar: preciso mesmo disso?

Para quem gosta de acompanhar as novidades em termos de novas tecnologias de skincare, por exemplo, é mais difícil, não?
Precisa pesquisar. Às vezes, o novo ativo tem a mesma capacidade cosmética de um ativo que você já tem. A tecnologia é amiga do consumo. Ela pode resolver possíveis problemas futuros em termos de sustentabilidade. A argila é natural, mas pode ser fruto de um extrativismo mineral nocivo para trabalhadores e meio-ambiente. Nesse sentido, a tecnologia pode criar alternativas sintéticas que sejam boas para a nossa pele e para o planeta.

Quais outras extrações de ativos naturais podem não ser sustentáveis, para a gente ficar de olho?
É preciso sempre checar a procedência dos cristais usados na beleza, como no gua-sha, por exemplo. Manteigas e ceras também precisam de atenção tanto na origem quanto na cadeia de produção, se é sustentável ou não. E saber que alguns selos não garantem sustentabilidade, caso do veganismo e do cruelty free. 

Você é uma grande entusiasta de cosméticos feitos em casa. Esse pode ser um caminho para se tornar mais sustentável na beleza?
Aprender a fazer não todos, mas alguns produtos em casa é uma forma de ressignificar os ingredientes, entender a lógica de como funciona o produto. Isso nos dá autonomia e gera senso crítico na hora de avaliar os cosméticos industrializados. Alguns exemplos fáceis de se fazer em casa é a máscara de argila, já que é só comprar a argila (de procedência segura) e misturar com água. O desodorante também é simples, assim como infusões como de chá de camomila e calêndula, que podem substituir as águas de beleza e águas nutritivas. O chá de alecrim bem concentrado, por exemplo, é ótimo para acne. Apostar em multifuncionais já prontos também é uma boa dica de beleza sustentável. O gel de aloe vera serve para demaquilar, hidratar a argila, no cabelo, como pós-sol e hidratante.

Por último, alguma dica para quem já está engajada ativamente no universo da beleza sustentável?
Temos que tomar muito cuidado com a crítica, tanto pra não ser superficial sem pegar todas as nuances, quanto para não ser tão agressiva. Sem generalizações sobre sintéticos, naturais, limpos e sujos. Há muitas nuances. A própria cosmética natural tem seus impactos. Se a gente cria polaridades, cria mitos. 

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