Esquecida, barreira cutânea garante hidratação, evita alergias e faz skincare funcionar

Foto: Jazzie Moyssiadis

Nos últimos anos, o mercado da beleza andou tão ocupado em lançar novas tecnologias de rejuvenescimento facial (leia: linhas e flacidez) e tratamentos com sintomas estéticos, como acne, hiperpigmentação e melasma, que a grande heroína da nossa pele acabou sendo colocada em segundo plano. Prazer, estamos falando da barreira cutânea. Camada responsável por proteger nossa pele de doenças, alergias, toxinas e irritações, ela sempre foi encarada como uma preocupação relacionada à parte da saúde da pele. Com tanto foco na parte estética, a gente acabou se esquecendo dela, acreditando que o mais importante era garantir a renovação da pele, muitas vezes por meio de descamações com ácidos, peelings e lasers para acelerar este processo. O que não ficou claro é que o aspecto da nossa pele também está diretamente ligado à preservação da barreira cutânea. “Quando a barreira cutânea está prejudicada, a pele fica opaca, sem viço, sem elasticidade. Depois, evolui para uma pele que descama, e muitas vezes vai para uma dermatite de pele seca, com vermelhidão. Pode haver também sensação de coceira, ardência e de repuxamento”, conta Fabíola Picosse, Coordenadora de Cosmiatria e Laser do departamento de dermatologia da UNIFESP. Em entrevista à Bonita de Pele, ela explica a importância da barreira cutânea, quais procedimentos, tanto naturais como dermatológicos podem prejudicá-la, e como conseguir aliar os benefícios de novos ativos e tecnologias que agridem o rosto com a reparação e a beleza garantida por uma barreira cutânea em dia. Leia a seguir.   

O que é a barreira cutânea?
A barreira cutânea é a camada da pele que tem a função de proteção contra alérgenos externos, microorganismos, agressões físicas e químicas. Ela é formada basicamente por células da camada córnea, chamadas de corneócitos, junto com uma dupla camada de lipídios intercelulares (compostos por colesterol, sulfato de colesterol, ácidos graxos e ceramidas). É como se fosse um muro de tijolos com argamassa no meio. Os tijolos são as células, e a argamassa, os lipídios intercelulares. Se a pele tem deficiência de barreira, começam a formar uns buracos nessa argamassa por onde podem passar os raios ultravioleta, substâncias químicas e outros agentes causadores de alergias, irritações e doenças. Outra função da barreira cutânea é a de segurar a água e manter a hidratação da pele. Prejudicada, a barreira cutânea perde água para o ambiente, o que só piora a desidratação da pele, criando um círculo vicioso: você hidrata a sua pele, mas a barreira cutânea não é capaz de reter essa hidratação. 

Qualquer tipo de hidratação é capaz de restaurar e manter a saúde da barreira cutânea?
Não. Há quatro tipos de hidratação: a umectante, a emoliente, a oclusiva e a reparadora de barreira cutânea. A mais importante e a reparadora, que regula o fluxo de água e restaura o poder da barreira lipídica. Essa hidratação pega a água do ambiente e restaura a barreira. Ceramidas são os melhores e mais comuns hidratantes dessa categoria, além dos ácidos graxos, complexos de ômega 3 e ômega 6. Procure por cremes restauradores de barreira cutânea ou os próprios para quem tem dermatite atópica.

E os hidratantes que são emolientes, umectantes e oclusivos?
Sozinhos, eles não são capazes de reparar a barreira, mas de maneira geral os cosméticos hidratantes fazem uma combinação deles. O oclusivo é o que impede que você perca água da pele para o ambiente. É o mais antigo, que hidrata por meio de ingredientes que formam uma camada impermeável, casos da vaselina e das ceras e óleos vegetais, como manteiga de karité, óleo de macadâmia, óleo de girassol e o óleo de coco, que está tão na moda. Eles retêm, mas não fornecem água para a pele. Os umectantes são ativos que tendem a atrair a água para onde está mais seco. O problema é que isso inclui o ambiente externo: se ele estiver mais seco, sua pele perderá água para o ambiente. Glicerina, uréia e ácido hialurônico estão dentro dessa categoria. Os emolientes são substâncias que vão preencher os espaços entre as células que estão em descamação. Eles melhoram a aparência e a elasticidade da pele, mas não restauram a barreira cutânea. São os casos de ativos como a lanolina e a dimeticona. 

Tratamentos com ácidos, esfoliações e outros procedimentos que aceleram a renovação da pele podem prejudicar a barreira cutânea, e com isso, a própria beleza da pele?
O prejuízo à barreira cutânea em tratamentos com ácidos ou dermoabrasão é controlado e por um tempo limitado. A barreira é afetada, mas logo se recupera. Em casos de pacientes que já têm fragilidade de barreira cutânea, recomendamos o uso de ácidos, por exemplo, junto com hidratantes reparadores. Aí, o hidratante mantém a barreira e tenho todos os benefícios da esfoliação, dos lasers, da dermoabrasão. O  ácido retinóico, por exemplo, que é o padrão ouro para tratamento de linhas e uniformização da pele, pode ser usado junto com um hidratante.

É verdade que alguns tipos de doenças dermatológicas, como melasma, têm a barreira cutânea prejudicada? 
Sim. O grande protótipo de barreira cutânea fragilizada é o de quem tem dermatite atópica. Por isso um dos grandes pilares do tratamento é a hidratação. E não é qualquer uma: novamente, é a que repõe os lipídios intercelulares. Peles com acne, rosácea e melasma também têm barreira cutânea deficiente. A reparação dela vai auxiliar no tratamento dessas questões. 

Como sei se minha barreira cutânea está saudável/íntegra? Há sinais que demonstram isso?Quando a barreira cutânea está prejudicada, a pele fica opaca, sem viço, sem elasticidade. Depois, evolui para uma pele que descama, e muitas vezes vai para uma dermatite de pele seca, com vermelhidão. Pode haver também sensação de coceira, ardência e de repuxamento.

O que pode prejudicar a barreira cutânea?
Um sabonete inadequado, como esses que ressecam muito a pele, sol, vento, baixa umidade, agentes de limpeza, banho muito quente. Todas esses fatores podem prejudicar a barreira cutânea, além de agentes químicos e os tratamentos dermatológicos, esses de maneira controlada. 

Como fazer para manter a barreira cutânea com a saúde em dia? Devo incluir um hidratante reparador para pele atópica, por via das dúvidas? Ou talvez um mais completo, com todas os tipos de hidratação? No dia a dia, será que não fica muito pesado? 
Nem todo mundo tem a barreira cutânea fragilizada. É por isso que é preciso consultar um dermatologista, para entender se você precisa reparar sua barreira pontualmente, sempre, e com quais tipos de ativos. Se sua barreira cutânea está saudável, você pode usar um ácido sem precisar necessariamente de um hidratante reparador de barreira (com ceramidas, por exemplo).


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