Katleen Conceição, a grande especialista em pele negra no Brasil, e suas dicas de beleza

Publicado em 15 de junho de 2021 por .

Jessica Felicio/Unsplash

Aos 50 anos, Katleen Conceição é hoje a grande referência em dermatologia para pele negra no Brasil.  Filha de pai médico, a gaúcha moradora do Rio de Janeiro é a primeira brasileira mentora da Skin of Color Society, organização internacional que estuda patologias de pele negra. Também é chefe do Ambulatório de Dermatologia para Pele Negra do Instituto Prof. R.D. Azulay, da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro, e chefe do Setor para Pele Negra da clínica de dermatologia Paula Bellotti (RJ). Ao longo da entrevista dada à nossa colunista Dandara Pagu, ela falou de sua trajetória como médica, do mercado de skincare, e deu dicas e fatos sobre a pele negra. “Envelhecemos menos porque temos um fator de proteção natural de 13.4 comparado a 3 do branco. Porém, manchamos com mais facilidade”, diz. Ela também conta sobre seu voluntariado e sua missão de empoderar e dar voz aos negros nas redes sociais. “Você pode mudar o país dando autoestima para a nossa gente.” Leia a seguir. 

Dandara: Conta pra gente um pouco sobre sua trajetória até chegar na medicina e se tornar essa dermatologista referência.

Katleen: Sou filha de um médico e tenente do exército. Tenho plena noção de que nós todos, na minha família, fomos privilegiados. Mas isso não quer dizer que eu não sofra preconceito, que eu não estou a par de tudo que está acontecendo, inclusive na pandemia. Desde pequena, tenho essa visão de ser uma negra poderosa, muito por causa do meu avô e do meu pai. Minhas referências sempre foram negras, meus cantores preferidos sempre foram Lionel Richie, Donna Summer, Alcione, Bebeto. Ao mesmo tempo, venho do Sul do País, e meu pai sempre falava das pessoas negras não se assumirem negras, de ficarem se embranquecendo. Quando alguém fala ‘você é feia, gordinha’ eu falo ‘você não tem espelho, né. Eu sou maravilhosa. Olha essa cara, essa melanina, olha essa boca’. Óbvio que sempre foi uma defesa para que as pessoas não usassem contra mim, mas acabou que eu fui acreditando fielmente nisso. E passo isso pra minha filha, pros meus pacientes. Quando você acredita, todo mundo acredita. Na medicina, quando entrei na minha área, não é que pensei: ‘nossa, precisamos ser estudados’. Mas encontrei uma dermatologia que toda branca, com clínicas ricas já montadas, e isso se fez necessário.  

Na parte da beleza, quais são as principais dicas para pele negra e cabelo?

O cabelo afro tem menos água, ceramidas, menos fibra elástica, e por isso quebra com mais facilidade. Ao mesmo tempo, somos muito vaidosas, e gostamos de colocar trança, aplique, a gente gosta de variar. Em um alisamento, por exemplo, digo para você fazer em um espaço de 4 meses e aumentar a hidratação. Se for pintar, um espaço de 15 dias para a próxima tintura. Desde pequenas, nossos pais puxam muito a parte da frente do cabelo, então é um cabelo que é mais fraquinho. É o primeiro que nasce e envelhece. Quando for fazer a trança, por exemplo, se sentir que a parte da frente ainda está legal, retocar em um mês, para não provocar alopécia por tração, que é a falta de cabelo na frente por puxar. Em relação à lavagem, sei que demanda, e às vezes tem gente que lava uma vez na semana, mas isso pode gerar a dermatite seborréica, a descamação do couro cabeludo, muito comum na pele negra, e pode passar para o rosto também. Sempre falo para os meus pacientes lavarem o cabelo duas vezes na semana. Para os pacientes em transição, usar produtos que sejam mais hidratantes na lavagem, depois usar uma ampola ou máscara mais hidratante, pois  o cabelo que está em transição também quebrar com mais facilidade. O cabelo afro cresce 0,9 cm comparado a 1,5 cm do branco, então, o crescimento dele é mais lento. Se não trata, ele vai ficar mais seco. Um dia antes de lavar o cabelo, é legal você dormir com óleo de coco, rícino ou azeite para hidratar esse fio, e no dia seguinte, lavar com um xampu co-wash, que é mais hidratante.

Qual tipo de pele é mais comum e como a gente pode cuidar?

A pele negra é mais oleosa. Na pandemia, observei mais acne na gente por causa da máscara, então eu peço para as pessoas trocarem com frequência, a cada 2/3 horas para não ficar acúmulo de maquiagem ou filtro solar. Usar sabonete para pele oleosa à base de ácido salicílico, glicólico, um hidratante que absorva essa oleosidade e filtro solar, porque a pele negra tende a ter mais pigmentação. São mais comum as hiperpigmentações e o melasma na pele negra porque temos maior quantidade de melanina, graças a Deus! Isso faz com que envelheçamos menos porque temos o fator de proteção natural de 13.4 comparado a 3 do branco. Porém, manchamos com mais facilidade.

Tem diferença pro tipo de pele do rosto e do corpo? É comum a pele negra ficar acinzentada?

Nosso corpo é mais ressecado, e também nossas axilas e virilhas tendem a manchar mais, são mais escuras por conta de uma produção maior de glândulas apócrinas, que produzem mais suor. Isso não tem a ver com odor, o odor tem a ver com proliferação bacteriana. Dizer que nós negros temos cheiro ruim é racismo! O restante do corpo é mais seco, por isso desde pequenininha a mãe fala para passar hidratante na perna, porque senão a gente fica acinzentado. Isso é comum porque a pele é mais ressecada. Então, é legal usar sabonetes em forma de óleo, hidratantes com macadâmia, óleo de amêndoas, de coco e até mesmo óleo de cozinha.  Quando o paciente não quer gastar com hidratante, indico hidratar com o de cozinha mesmo, é uma beleza, o problema é o cheiro.

Como funciona o processo de cicatrização da pele negra? É normal ter quelóide?

Essa questão toda do quelóide e da cicatriz hipertrófica é que nós temos a fibra colágena mais espessa, uma deformação na degradação desse colágeno, e por isso temos uma tendência maior a ter cicatriz queloidiana. Mas pela fibra colágena ser mais espessa nós também envelhecemos devagar. É muito comum o escurecimento do terço inferior (boca) e a projeção da olheira.

E a foliculite?

São inflamações recorrentes na mulher e no homem, na região da barba e na virilha, porque o nosso pelo é encaracolado então encrava com facilidade. Qual o melhor método para depilar ou raspar? Aquele que é mais confortável para você e não vai ter o encravamento do seu pelo.

Aproveitando esse assunto, existe um mito também que a estria na pele negra é mais grossa que na pele branca. Isso é verdade?

Na verdade, ela é mais evidente por causa do contraste da pele escura. No tratamento a laser da estria, ela responde mais rápido, por conta desse contraste de cor.

Qual a sua visão da indústria dos cosméticos, do skincare no geral, em relação à pele negra?

Quando colocam pessoas de pele negra em campanhas, eles sempre tentam colocar pessoas de tom claro, nunca priorizam eu, você ou uma Lupita ou um Lázaro. A indústria quer sempre embranquecer os negros. E essa coisa da palavra ‘negro’, ‘preto’ também é uma questão. Algumas empresas hoje em dia já colocaram pele negra, mas aquelas primeiras colocavam morena, morena mais. Quando não tem uma pessoa negra por trás para elaborar o produto, eles ficam nessa. Igual quando eu era chefe do ambulatório de Bonsucesso eles me ligaram assim que abriu o ambulatório de pele negra, e me perguntaram se podia falar pele negra.  Meu amor, eu sou negra, qual o problema? Existe também um oportunismo, as pessoas querem ganhar dinheiro em cima da gente, mas não querem ter o carinho e a empatia de atender as classes menos favorecidas. Elas querem atingir artistas, blogueiras como você, mas será que a população está sendo atendida? Por isso faço trabalho social. Hoje em dia, já tem gente se apropriando, falando que faz pele negra, sem ter estudado. Faço há 18 anos, não é pelo fato de eu ser negra e sim pelo fato de eu estudar a pele negra.

Como é esse voluntariado que a senhora faz na Santa Casa (RJ)? 

Faço trabalho social há 18 anos, desde que eu comecei a estudar a pele negra. Comecei em Bonsucesso e hoje em dia estou na Santa Casa. A pessoa vai ao ambulatório geral, e é encaminhada para mim quando tem patologias que eles não conseguem resolver. Esse trabalho de consciência de pele vem muito da Sociedade Brasileira de Dermatologia e eles oferecem atendimentos gratuitos ou com preços mais populares. Acho incrível esse trabalho que a gente faz no Brasil. Quando eu vou a um congresso americano, eles não têm isso. Sei que tenho um papel muito importante nas redes sociais e toda parte do pioneirismo, de mostrar para as pessoas negras a questão do cuidado com a pele. Você pode mudar o país dando autoestima para a nossa gente. 

 

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