Coronasomnia, procrastinação e outros males da falta de sono na pandemia

Publicado em 14 de junho de 2021 por .

Foto: Jazzie Moyssiadis

Como anda seu sono durante a pandemia? Vários termos já foram criados para definir quem anda dormindo mal ou não conseguindo pregar o olho nesse período, de Coronasomnia – em português, corona-insônia – aos procrastinadores do sono, ou aqueles que, sem tempo para relaxar durante o dia, preferem trocar horas de sono pelo feed do Instagram ou uma série nas plataformas de streaming. O  que está acontecendo com muitas de nós que, mesmo exaustas sem sair de casa, não conseguimos descansar quando é chegada a hora? “Na pandemia, as tarefas online fizeram com que o expediente não tenha hora para acabar.  E a falta de rotina afeta diretamente o sono. Não há o tempo perdido do deslocamento para o trabalho, mas isso é irrisório perto dessa nova agenda.” A explicação é de uma especialista no assunto, que tem atendido mulheres de vários níveis econômicos com problemas para dormir. Coordenadora do Setor do Sono na Mulher da UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo), Helena Hachul conta que, de um lado, muitas das mulheres com menos poder aquisitivo perderam seus empregos e ficaram, além de estressadas pela falta de dinheiro e a insegurança do momento, sem horários muito definidos. Já no caso de quem conseguiu se manter empregada, o problema é o excesso de tarefas gerado tanto pelo acúmulo de funções que deveriam ser de outro funcionário que foi demitido ou não pode ser contratado quanto,  talvez, de uma insegurança dos patrões em relação a um novo formato que exige uma relação profissional adulta e de confiança mútua: do contrário, o chefe sobrecarrega a trabalhadora de tarefas para garantir que, embora longe dos olhos, no “conforto” do lar, ela esteja sempre trabalhando. “A falta de divisão de horários faz com que a gente durma pior na pandemia. Se você termina o expediente às nove da noite e só então vai jantar, vai ter que esperar pelo menos duas horas antes de se deitar, ou a digestão atrapalhará o seu sono, por exemplo.” 

Uma pesquisa encomendada pela área de bem-estar e saúde da Philips entrevistou 13 mil adultos de 13 países, incluindo o Brasil, e apontou que, desde o início da Covid-19, 74% dos brasileiros adquiriram um ou mais problemas de sono, com 50% relatando que a pandemia afetou diretamente sua capacidade de dormir bem (a porcentagem é similar à média do resto do mundo). É claro que os problemas de insônia sempre estiveram por aí, mas a doutora Helena aponta um comportamento maior, que se agravou na pandemia. Algo que nos define, segundo ela, como a sociedade da privação intencional do sono. Aí entram comportamentos gerados pelo excesso de trabalho, tarefas burocráticas da manutenção da vida e da casa que fazem com que a gente tire algumas horas dedicadas ao sono para terminar de trabalhar ou para o momento relax que nos foi privado ao longo dia, atualmente chamada de procrastinação do sono ou sleep revenge procrastinantion, algo que, segundo a médica, sempre esteve por aí, mas foi intensificado neste período.

NÃO É OPCIONAL

Por que será que a gente sacrifica uma parte do sono com tanta facilidade? Parte da resposta pode estar na mentalidade da exigência da superprodutividade gerada pelo ápice do capitalismo nas últimas décadas. Até hoje, dizer “estou trabalhando demais” soa como uma qualidade para a maioria das pessoas. Dormir seria para os preguiçosos, ou um luxo eventual. Só que não.

A ciência comprova que dormir as horas necessárias para o corpo não é um bônus, mas uma necessidade assim como tomar água e comer. Essa é uma constatação da NIH – National Institute of Neurological Disorders and Stroke –, entidade norte-americana. Os dados do instituto são confirmados por Helena. “A falta de sono adequado causa irritação, déficit de atenção, delay para tomada de decisão. Do ponto de vista físico, evidências apontam que dormir mal aumenta exponencialmente as chances de adoecer. Isso porque a privação de sono afeta diretamente o sistema imunológico”, diz. E tem mais: sabe aquela justificativa de quem dorme pouco de que a quantidade de horas necessárias é muito pessoal? Balela, pelo menos para mais de 90% de nós. Segundo pesquisa publicada pela americana Sleep Foundation, apenas 1 em cada 4 milhões de adultos precisa de menos de 7 horas de sono por noite. Isso significa que, na cidade de São Paulo, dos cerca de 12 milhões de moradores, 3 podem dormir menos do que o necessário para a maioria: entre 7 e 9 horas. O resto de nós vai sofrer as consequências físicas e mentais da privação.

O QUE FAZER 

Uma das chaves para quebrar esse ciclo se chama rotina. É algo do qual muitas de nós fugimos na tentativa de estabelecer uma vida mais livre e menos burocrática. Lembre-se, porém, que não é a rotina que seus pais impuseram para você na adolescência, mas o seu próprio planejamento. É preciso estabelecer horários fixos de refeição e também para dormir. Durante o dia, uma dica é planejar no despertador intervalos de 15 minutos ou um de pelo menos 30 minutos para fazer algo de que gosta, por mais bobo que seja. Isso pode ajudar a evitar a chamada procrastinação do sono à noite. A médica fala muito da necessidade de respeitar o chamado ciclo circadiano, que é a maneira como nosso organismo se regula se baseando no dia e na noite. “Tem que trocar a roupa, toma café, sentar em outro lugar que não a cama ou dentro do quarto. Não pode também ficar no escurinho, precisa avisar o corpo de que é dia, acendendo a luz, abrindo a janela”, conta Helena. 

Sobre exercício físico, o objetivo principal deve ser o contribuir para o funcionamento saudável do corpo. Neste caso, diz a especialista, não importa a modalidade, o principal é a associação de frequência e duração. O total mínimo semanal de exercício indicado é de 150 minutos, podendo ser divididos em três séries de 50 minutos, cinco séries de 30 minutos, ou o que achar mais conveniente. Vale caminhada, polichinelo, yoga, e assim por diante (veja nossa reportagem sobre exercício dentro de casa).

Sobre a siesta, aquela dormidinha no meio do dia para repor as energias muito comum em países como a Espanha, Helena alerta que ok, com ressalvas. Embora a qualidade do sono não seja a mesmo, de alguma maneira você de fato dá uma recarregada em parte da sua bateria fraca de privação de sono. Mas o ideal, também segundo estudo publicado na Sleep Foundation, é que não passe de 30 minutos. “A gente tem dois controles de ritmo de sono: o circadiano, e a adenosina, substância cujo acúmulo acontece enquanto você está desperto, e, no fim do dia gera sonolência. Quanto mais acordado, mais vontade de dormir”, finaliza. E se tudo isso ainda não foi o suficiente, um bônus extra para nunca mais perder uma hora de sono: dormir mal afeta imediatamente o aspecto da pele. “A espessura da epiderma diminui, os poros ficam maiores, aumenta o cortisol, fazendo com que a pele fique menos elástica, com menos tônus, por conta da diminuição da produção de colágeno”, ressalta Helena. E aí, bora para a cama? 

2 comentários sobre “Coronasomnia, procrastinação e outros males da falta de sono na pandemia

  1. Pollianna Vieira disse:

    Realmente, meu sono de forma geral bagunçou muito com a pandemia…
    Junta preocupação, com ansiedade, com medo…
    No meu caso tive que procurar ajuda médica para lidar melhor com tudo, incrível como a pandemia afetou a vida de todos.

    • Carol Vasone disse:

      Você não está sozinha nessa, Pollianna, aconteceu e segue acontecendo com muita gente. Que bom que procurou ajuda, espero que esteja melhor e que tenha curtido as infos do texto 🙂

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