Luz azul do celular, pele e a proteção solar à noite: necessário ou exagero?

Foto: Jazzie Moyssiadis

Tudo parece ter  começado há cerca de dois anos. Foi no início de 2019 que a Stylight, plataforma global de pesquisa do mercado de beleza, registrou um aumento de 136% da pesquisa no Google por “cuidados com a pele contra a luz azul”. Em maio do ano passado, a porcentagem quase triplicou, batendo os  336% de buscas, apontou o site de notícias de beleza Premium Beauty News. Faz sentido: em plena pandemia, com todo mundo dentro de casa grudado nos celulares e computadores, a ideia de que a luz azul dos aparelhos eletrônicos pudesse fazer mal à pele virou uma grande preocupação. Para completar, o lançamento de produtos de proteção contra a luz azul – algo sobre o qual mal se falava há alguns anos – fez a gente pensar que se tratava de um novo mal causado pela tecnologia. Foi aí que passamos a ouvir indicações, inclusive de dermatologistas, de usar protetor solar à noite para se proteger contra os raios maléficos do seu celular. Será que precisa mesmo, ou é exagero?

Afinal, o que é a luz azul?

A luz azul é um espectro de luz visível, com comprimento de ondas mais curto do que a luz ultravioleta (UV). Ela é uma parte da radiação solar que conseguimos ver – a que entra pela janela e ilumina a casa, mesmo em dia nublado – e também está presente nas lâmpadas e nos LEDs dos dispositivos eletrônicos. “A luz azul é preocupante porque tem mais energia por ‘photon’ de luz do que outras cores no espectro visível, ou seja, luz verde ou vermelha. Em doses altas o suficiente é mais provável de causar danos quando absorvida por várias células em nosso corpo”, explica o doutor David J. Ramsey, para o blog Harvard Health. Existe, portanto, a luz azul natural, que faz parte da luz visível vinda da radiação solar, e a luz azul artificial, vinda de lâmpadas e aparelhos eletrônicos. O médico de Harvard ressalta ainda a dosagem. Guarde essas informações, e sigamos. 

Celular cancelado?

A dermatologista Ellene Papazis, de Volta Redonda (RJ), é da turma dos dermatos que defendem a proteção contra a luz azul de tablets e celulares. “Um artigo publicado pela K. Dong Et Al, observou um aumento na produção de radicais livres em 88% após 66 minutos de exposição à luz azul, no uso do tablet. Neste trabalho também foi notado maior dano ao DNA dos queratinócitos, principal célula da nossa pele”, afirma a médica, ao citar a pesquisa publicada em 2019. “Se há aumento do estresse oxidativo celular, dano do reparo do DNA dos queratinócitos e aumento de substâncias inflamatórias, consequentemente teremos um envelhecimento mais precoce”, completa a especialista, que não recomenda protetor solar à noite, mas durante o dia, complementado por antioxidantes contra a vitamina C, um combo clássico para a proteção da pele no geral. Jardis Volpe, dermatologista de São Paulo, tem avaliação diferente. “A gente, dermatologista, achava que esse tipo de luz azul de LED faria muito mal pra pele, poderia acelerar o fotoenvelhecimento, porém, esses estudos novos mostram que a luz azul não é uma grande vilã como se pensava”, diz. 

Não é bem assim

Outros especialistas e pesquisas recentes confirmam o malefício da luz azul natural à pele, mas não da luz azul de computador e celular. “O discurso público tem se caracterizado pela falta de conhecimento e de estudos científicos. Por meio de nossas atividades de pesquisa, conseguimos provar que a quantidade de luz azul artificial emitida durante o uso convencional de dispositivos eletrônicos está longe de provocar efeitos nocivos na pele ”, afirmou à Premium Beauty News Ludger Kolbe, cientista-chefe de fotobiologia da Beiersdorf, empresa alemã centenária, dona de marcas de beleza como Nivea e Eucerin. Ele foi o responsável por uma pesquisa publicada no ano passado, refuta totalmente a teoria de que luz azul de gadgets prejudica a pele. Segundo o estudo dos cientistas alemães da Beiersdorf, uma semana inteira, 24h por dia, sob a luz artificial de um celular, equivale a 1 minuto de sol de verão em Hamburgo (Alemanha), sede da empresa. 

Dermatologista com doutorado em melasma pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), coordenador da residência do ambulatório de dermatologia pela mesma universidade, Daniel Cassiano foi o que inspirou esta reportagem ao me contar o quanto não se conformava ao ler colegas recomendando protetor solar até à noite para proteger a pele contra a luz azul. “A luz azul proveniente dos raios solares, sim, é prejudicial para a pele e para as manchas, e piora o melasma. Mas a luz azul artificial dos celulares é ínfima perto dela. Precisamos nos preocupar com o que realmente é importante”, diz, ao citar um estudo publicado na mais respeitada revista de dermatologia do mundo, a Journal of American Academy of Dermatology (JAAD) que demonstra que a exposição por curto período à luz azul artificial não piora o melasma. “Para você ter uma ideia, para que a gente tenha o equivalente a um minuto de exposição solar, precisamos de 1.950 horas de exposição sem filtro nenhum na frente desses aparelhos”, compara Felipe Ribeiro, professor de dermatologia na Universidade Mogi das Cruzes, em São Paulo.

Coordenadora de Cosmiatria e Laser do departamento de dermatologia da UNIFESP, Fabíola Rosa Picosse reforça o argumento contra a luz azul artificial como vilã. “O melasma é o mais sensível à luz, mais até do que o câncer de pele, então se tem estudo demonstrando que não piora o melasma, com certeza não vai induzir ao câncer de pele. É bobagem usar protetor solar à noite  e a gente deve até tranquilizar quando se pode tranquilizar, senão fica todo mundo muito neurótico, não vale a pena.” Ufa.

Proteção contra a luz visível 

Se a luz azul dos aparelhos eletrônicos não é um perigo para pele e salva a gente de ter que passar protetor solar até de noite, a luz visível, que inclui uma intensidade alta de luz azul, pode prejudicar a nossa pele e pede cuidados. “Uma maneira da gente se proteger dessa luz azul natural, que pode ser nociva, é usando o protetor solar com pigmentos, com cor. Sem cor, ele protege principalmente contra os raios ultravioleta A e B. Outro ativo que ajuda bastante na proteção contra a luz azul e a luz visível no geral é a luteína, tanto oral quanto tópica. Prescrevo cremes diurnos com antioxidantes e, acrescentando a luteína, você consegue ter uma proteção adicional”, recomenda Volpe. (com reportagem de Victoria Cezar)


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *