Serão os filtros de beleza a versão virtual das cirurgias plásticas?

Publicado em 10 de maio de 2021 por .

A pintura "Eco e Narciso", do artista John William Waterhouse

Tem aquele mito de Narciso, em que ele se apaixona pela própria imagem refletida num lago e morre afogado ao mergulhar, literalmente, em si mesmo. Os gregos sabiam das coisas e, há milhares de anos, criaram a história que, com personagens e cenários adaptados ao século 21, volta a se repetir. Troque o lago pela internet; a imagem refletida na água pelas selfies e transmissões do nosso próprio rosto que não conseguimos deixar de encarar durante as chamadas de Zoom. Em uma das muitas versões da lenda, Afrodite, a deusa do amor, é quem faz Narciso se apaixonar perdidamente por ele mesmo como castigo por ter desprezado o amor de uma ninfa. O equivalente atual do feitiço da deusa poderia entrar na conta dos filtros virtuais de beleza. E nem os teoricamente inocentes, criados para reproduzir maquiagens, escapam do efeito nocivo: já reparou como, junto com o delineado de gatinho ou a sombra colorida vem um ajuste maroto da textura da pele? “Tenho recebido pacientes que aparecem com prints de imagens delas mesmas com um filtro aplicado e me dizem: ‘quero ter essa pele’. Isso nunca vai acontecer, porque essa pele do filtro não existe!”, conta o dermatologista Alberto Cordeiro, de São Paulo. O tom do especialista traz uma ponta de desespero. “Antes, as pessoas vinham e diziam: quero o nariz da Xuxa. Ok, já é difícil, mas pelo menos é algo que realmente existe materialmente. O filtro apresenta uma possibilidade de imagem que absolutamente ninguém, presencialmente, tem. Sem maquiagem, por mais bonita que uma pessoa seja, ela vai ter uma irregularidade na pele, poros, manchinhas. Isso confere humanidade, e não deve ser retirado”, diz. 

A nossa colunista Dandara Pagu, testando os filtros de beleza

Cirurgião plástico, Vinícius Basile sentiu um impacto parecido nas pacientes que atende na Clínica Basile, uma das maiores do interior de São Paulo, responsável por cerca de mil cirurgias por ano, mais de 90% delas estéticas. “Hoje, as inspirações das pacientes são imagens de corpos de influenciadoras que, elas nem percebem, já têm um filtro aplicado por cima”, diz o médico, que é membro das sociedades brasileira e americana de cirurgia plástica, da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, e trabalhou ao lado de Ivo Pitanguy. Ou seja, nem a própria musa, ao vivo, tem aquele corpo. Assim como na dermatologia, na cirurgia plástica houve um aumento do número de procedimentos no rosto que, em tempos de socialização virtual, é o que fica mais evidente. Segundo Basile, a bichectomia tem tido muita procura, assim como lipoaspiração de papada e plástica no nariz. Mas a busca por cirurgias corporais não caiu durante a quarentena, diz ele, e algumas, como lipoaspiração e implante de prótese de silicone no seio até tiveram ligeiro aumento. “O home office facilita a recuperação.”

Sem sair de casa e sem viajar, as pessoas estão respondendo ao principal estímulo que têm recebido. No caso, o reflexo da própria imagem e a versão digitalmente turbinada dos outros. E não é uma impressão: na clínica de Basile, o aumento de plásticas foi de 40%  durante a pandemia. Alberto Cordeiro também percebeu esse crescimento, assim como a dermatologista Juliana Mendonça (CRM 108572, RQE 35313), com clínica em São Paulo. Segundo ela, as mulheres de 35 anos têm sido impactadas pelo reflexo da própria imagem nas reuniões de trabalho e encontros virtuais no Zoom, e tendem a pedir procedimentos com resultados mais próximos da imagem inicial delas mesmas, numa versão que consideram melhor. Já as mais jovens, entre 20 e 25 anos, pedem procedimentos inspiradas nos filtros de beleza que fazem a chamada “harmonização facial”, aquela que deixa o rosto mais anguloso, os lábios volumosos e o olhar estilo foxy eyes (olhar de raposa), tendência polêmica da internet que consiste em puxar o olhar para cima por meio de maquiagem ou lifting de sobrancelha (este na dermato). “Estamos vivendo, neste momento, uma mudança de cultura de padrão de beleza. Para as mulheres mais jovens, essa mudança vem das imagens com filtros de beleza que transformam o rosto de um jeito bem específico”, diz.

Juliana levanta a urgência da reflexão sobre como encararmos a acentuação de um comportamento junto com uma mudança estética cultural que foi acelerada pela pandemia. Basile complementa o raciocínio e pondera. “As pessoas ficam se baseando em padrões de beleza, mas esses padrões mudam. E aí, quando mudarem, o que você vai fazer? Uma cirurgia plástica é um ato médico, envolve riscos. Não um produto, uma mercadoria.” 

O que a gente está estimulando dentro da gente mesma toda vez que usa um filtro de beleza para uma selfie, um stories, e esse filtro, além de colorir, dá aquele tapa na sua pele, ou uma afinada no nariz? Talvez uma melhoradinha no contorno do rosto também? E uma diminuída aqui, na papada? As mulheres que têm ido atrás de procedimentos dermatológicos ao passarem horas vendo o reflexo da própria imagem nos calls em vídeos provavelmente nem sabem, mas há um filtro que melhora a sua imagem e até te maquia no Zoom. E você pode torná-lo automático em todas as chamadas! Isso resolve o problema de um lado, e cria um novo do outro, notaram? E o que dizer de celulares que já vêm com um filtro automático embutido, que “melhora”, automaticamente, o seu rosto em toda foto que você tira. Xiaomi e Samsung são apenas dois exemplos de marcas com esse recurso. Por “melhorar”, leia adaptar a sua versão humana para uma interpretação digital de um ser humano de pele sem poros, linhas finas e eternamente jovem. Tentador?

Em fevereiro passado, o Reino Unido proibiu os usuários do Instagram de usar filtros em imagens de publicidade. Parece o lance antigo do Photoshop, né? A diferença é que antes a gente via as imagens mexidas, mas também convivia pessoalmente com pessoas sem filtro, e percebia que existia gente como a gente, de carne, osso, acne, sardas, oleosidade ou ressecamento na pele, flacidez, e por aí vai. Hoje, “convivemos” muito mais com as nossas versões e com as versões digitais dos outros do que com nossa versão presencial. “Depois de mais de um ano interagindo virtualmente com um rosto modificado por filtros de beleza, vai ter muita gente que não vai conseguir sair de casa e encontrar as pessoas com a mesma tranquilidade”, acredita Miriam Tawill, psicanalista, autora do livro “Mundo Fashion, Modelos e Bastidores” e uma das fundadora do grupo Corpo e Cultura, versão brasileira do britânico Endangered Bodies.

Numa pesquisa recente, já foi identificada a fadiga do Zoom, maior em mulheres, que ficam exaustas, literalmente, da própria imagem. Talvez porque o olhar sobre nós mesmas seja sempre este da análise, e de uma busca por uma imagem perfeita. A psicanalista aponta também a obsessão pela própria aparência como uma questão relacionada ao individualismo excessivo, à vaidade fora de controle, algo que nosso amigo do mito grego representa bem. “Estamos numa era do narcisismo, nunca nos olhamos tanto, e isso acontece graças às telas de celulares e computadores. Quando você conversa pessoalmente, você enxerga o outro. Num call com vídeo, sua atenção é dividida entre o outro e você mesma.” Resta saber se conseguiremos achar um caminho, ou se acabaremos afogadas em nossos próprios avatares da perfeição.

5 comentários sobre “Serão os filtros de beleza a versão virtual das cirurgias plásticas?

  1. Manu disse:

    Eu percebo inclusive que criadoras de conteúdo que falam sobre pele, vivem 24H no filtro. E sei que isso impacta sim, em quem está assistindo. Já li relatos de seguidoras que falaram que a impressão que elas tem, é que usando os produtos que algumas blogueiras usam, ficaria com aquela pele, e que inclusive chegaram a comprar produtos indicados por elas. E eu vejo isso seriamente, tendo em vista que testamos produtos. Eu faço questão de mostrar minha pele real, fazer minhas rotinas, com a pele real, sem filtros! Pele perfeita não existe e precisamos normalizar isso! Encorajar mulheres a se mostrar como são, não se esconderem atrás de filtros.

    • Anna disse:

      Nossa Manu, seu comentário me representa. É preocupante e quem tem esse poder de influência, tem que se atentar. Mas em contrapartida também vejo coisas boas acontecendo, como diversas musas do instagram postando fotos sem retoques, mostrando as estrias, as celulites… Será um longo caminho e os extremos Sempre vão existir, mas tenho fé na humanidade e a esperança de que esse estigma de perfeição seja considerado cada vez mais torpe 😘

  2. Jonas Netto disse:

    que reflexão boa e necessária 👏 é triste como a gente não encara as mudanças dos filtros como as reais distorções da aparência, né? estranho pra mim não é ter o nariz avantajado, os lábios menores, mas sim se deixar levar pela hipnose que eles causam. eu percebi que no comecinho do hype, isso já me fazia mal. não me ver de verdade e acreditar naquilo me doía. meu exercício pra melhorar isso foi parar de usar por completo qualquer filtro de mudança de aparência… hoje só me permito aos mais divertidos ou de fantasia.

  3. Lili disse:

    Sabe o que mais me aborrece? Os dermatologistas são os PRIMEIROS a aparecerem com o rosto “cremoso” pelo uso de tantos filtros digitais, além das bolsas falsificadas e toda sorte de hipocrisia.
    Em tempo: minha pele é perfeita porque é a que recobre meu corpo.
    Precisamos – começando pela classe médica – redefinir o que é uma pele perfeita. Em minha opinião, pele perfeita é pele saudável.
    Eu apareço usando filtro, arrumada, de roupão, descabelada, sem filtro e não me preocupo com isso.

  4. Roberta Tonelli disse:

    Precisamos urgente rever o que faz sentido para nós. Quando conseguiremos sair dessa cobrança louca e invasiva!? Me preocupa muito como sairemos dessa vida pandêmica, porque as relações mudaram de uma forma cabulosa e somos obrigados a expor nossa figura. Um estudo recente que eu li fala que a qualidade de vida no trabalho aumentou devido ao uso de máscaras, porque os funcionários se sentiam menos forcados a sorrir para clientes. Ou seja, estavam protegidos e menos expostos ao julgamento alheio, a essa cobrança de estarem felizes e satisfeitos de atender e vender. Até que ponto ter um padrão de beleza é uma necessidade? Uma urgência? Vejo os filtros como essas máscaras na vida…

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